setembro 20, 2017

Começou por engano


Nekalayla afirmava ter conhecido Jesus Cristo, um dia, quando andava no deserto, e que Jesus Cristo lhe contara tudo. Sentaram-se os dois numa rocha e o J.C. revelou-lhe tudo. Agora, era ele que passava os segredos a todos aqueles que os pudessem pagar. 

setembro 10, 2017

leituras



É improvável que “O Capital” seja muito lido em Sunderland ou em Greenwich Village: passámos das simplificações em panfletos para os despropósitos no Twitter. O dilema de Marx subsiste um século depois da revolução bolchevique, dois séculos após o seu nascimento e no limiar da revolução cibernética. De um lado, a fecundidade do capitalismo global na criação de riqueza. Do outro, a forma assustadora como reduz o trabalhador a um fragmento de homem e o arrasta com a mulher e os filhos para debaixo do rolo compressor.

David Reynolds, “O difícil legado de Karl Marx”, in New Statesman – Londres

No meio do marasmo editorial português, valha-nos esta colectânea de textos (de várias fontes) com a cortesia do Courrier Internacional

Pornopopeia (II)


Hoje amanheceu assim



a acompanhar um cacete mal cozido com manteiga, chá preto e limpeza da casa...domingo dos verdadeiros.

setembro 09, 2017

Os milagres e a minha bomba da asma



A minha bomba da asma não faz milagres. Na verdade é um dois em um: ventila através do fumarato de formoterol di-hidratado que é um broncodilatador, e previne a inflamação dos pulmões através de um corticosteróide chamado  budesonida. Não faz milagres, mas tomada regularmente ajuda-nos a respirar com normalidade e sem sintomas. Muno-me sempre da bomba quando está um jogo do Sporting por perto. Foi o que aconteceu ontem. Já se sabe, o Sporting é meio caminho andado para um pacemaker. Não convém esquecer.

A primeira parte do jogo mostrou-nos que a genica dos imponderáveis se dá bem com o planeamento de uma época, principalmente se o principal actor da mesma for o nosso Sporting. O jogo estava controlado, com o Feirense a fazer uma fantástica exibição, segundo o Sr. Freitas Lobo. Com a saída do Piscinas, não tendo nenhum defesa direito no banco (por onde anda o Ristovski?), tivemos que fazer aquilo que fazemos melhor: inventar. O Sr. Freitas Lobos tocou a rebate. Ainda estava a tocar a rebate quando a primeira parte acabou. O Ruiz bate pouco nos adversários, mas é um picanhinha em potência ao nível dos lípidos.

Foi com naturalidade que chegamos depois à vantagem. O Ruiz continuava à procura de um churrasco no relvado. E foi ainda com mais naturalidade que nos deixamos empatar. O Sporting tem destas coisas. A bomba estava por perto. Um pacemaker também não é difícil de arranjar. A malta, mesmo não religiosa, acredita sempre. E vale a pena acreditar quando a equipa de arbitragem ainda não precisa de ir ao oftalmologista. Nem todos os jogos tiveram esse privilégio. É marcar uma consulta...

(publicado originalmente aqui)

setembro 05, 2017

Smartfone zombie


qualquer semelhança com a realidade é pura ficção...



nem o George Romero, ou o Carpenter, conseguiram lá chegar...

agosto 28, 2017

Tudo por causa de um capote


Graças ao generoso contributo do clima petersburguense, a doença desenvolveu-se com maior rapidez do que seria de prever, pelo que, quando o médico lhe apalpou o pulso, nada mais achou a fazer do que receitar-lhe uma compressa, unicamente para o doente não ficar privado da ajuda benéfica da medicina; de resto anunciou-lhe de imediato uma morte iminente para dali a dia e meio. 

"O Capote", Nikolai Gógol. 

O nosso mundo é um parque temático


"Aquela que é a fronteira mais militarizada do mundo é um verdadeiro museu a céu aberto para turistas, com observatórios, túneis, memoriais, checkpoints e povoações com importância histórica. Desembolsando um pouco mais [de dólares], há a possibilidade de alguns tours serem feitos na companhia de um desertor norte-coreano."
"Sonho distante", artigo sobre a península coreana,  in jornal Expresso (26-08-17)

Por um punhado de dólares, temos assim acesso a um parque temático, não fosse aqui a simulação, uma manobra, uma ficção,  em muito ultrapassada pela realidade dos factos. Uma península dividida há setenta anos. O mundo à beira de um ataque de nervos, com as sucessivas ameaças nucleares da Coreia do Norte, devidamente inflamadas pelo lança chamas Trump. É um cocktail digno do nosso disney world, não fosse a chatice de uma ou outra bomba poderem rebentar mesmo. Queremos estar lá para ver?


agosto 25, 2017

Pornopopeia


Que fazer quando tudo arde?


O fogo e os espalha brasas dos jornalistas. O fogo e os espalha brasas dos comentadeiros a soldo. O fogo e os espalha brasas dos políticos. O paiol que afinal era um ferro velho. Mais espalha brasas. A praia: uma brasa. O campo: um braseiro. Mais jornalistas. Ali ao lado o Trump lança-chamas. O pote das migas Coreano brinca com um isqueiro. Queimam-se etapas para as autárquicas. Cheira a esturro. Os aceleras fanáticos passaram em Barcelona, diz que num dia que estava uma brasa. Que farei quando tudo arde*?

(*Sá de Miranda)

agosto 17, 2017

War On Drugs



Isto já é um fetiche antecipado (acho que ainda nem sequer saiu o álbum), a guitarra, a voz, a dar para o avó cantigas Dylan, ou o avó Young, não sei, a voz a percorrer a música toda: keep moving with the changes... yeah... ooh...

(des)orientados


Sobre o jogo (de ontem) não há muito para dizer, a não ser que em termos de previsibilidade o Sporting já é uma equipa de topo.

Com os dados disponíveis até ao momento podemos fazer uma análise interessante da época em curso: ficamos a saber, por exemplo, que o Mathieu é o nosso melhor defesa esquerdo. Ficamos a saber, por exemplo, que o Mathieu quando sobe com a bola de cabeça levantada e vai por ali fora, é o nosso melhor jogador a fazer de William Carvalho. Ficamos a saber que o William Carvalho quer fazer de William Carvalho noutro sítio. Ficamos a saber que o Fábio Coentrão é o Fábio Coentrão dos últimos tempos (no Real e Mónaco), e não o Fábio Coentrão que foi vendido por um camião de notas (o Sr. Mendes é o melhor jogador de todos). Ficamos a saber que o Fábio Coentrão é sportinguista desde pequenino. Ficamos a saber que do Cristiano Piccini só a parte do Cristiano é que é nome de jogador de futebol, já Piccini, soa a compositor de opereta de segunda categoria, ou a piscinas em italiano, coisa que o senhor faz bem. Ainda nos vai dar muitas alegrias quando for transferido para o Real Massamá. Nota: O Mathieu recusa-se a ser também o nosso melhor defesa direito, já não tem idade para isso.

Ficamos ainda a saber que o Battaglia é muito jeitoso a destruir mesmo quando tenta construir. Ainda viveremos o suficiente para ver o Battaglia fazer falta sobre o Battaglia, ou mesmo o Battaglia errar um passe para o Battaglia. Ficamos a saber que o Adrien se recusa a fazer de Adrien, pelo menos por enquanto, ou pelo menos, com esta camisola. Ficamos a saber que o Podence e o Dost fazem uma dupla fixe a fazer tabelas numa espécie de bilhar de bolso. O Bas Dost, não tarda, também se esquecerá de como se faz de Bas Dost. O Acuña teve uma vida difícil e já está habituado a sofrer. Continuará a ser Acuña sem dificuldades de maior. Como disse o JJ no final: só faltou o golo, o resto até não esteve assim tão mal. Ficamos a saber que continuamos bem orientados…

(publicado originalmente no Insustentável)