outubro 21, 2017

resumo da semana

(…)
é preciso trabalhar, se não por gosto, ao menos por desespero, porquanto, bem vistas as coisas, trabalhar é menos aborrecido do que divertir-se.

Baudelaire, "O meu coração a nu"

outubro 20, 2017

Que farei quando tudo arde*?


Frequentei Engenharia Florestal no início dos anos noventa do século passado. Já nessa altura tínhamos a época dos incêndios, mas a época preferida era a dos subsídios, que normalmente durava todo o ano, sem qualquer fiscalização. Nunca, como então, existiram tantos projectos imaginários. O dinheiro circulava, mas apenas alguns conseguiam apanhar boleia. Em algumas dessas boleias foram exauridas as verdadeiras hipóteses de uma reforma florestal planeada. Para isso seria necessário pensar o país como um todo. E o país, nessa altura, tinha a forma de uma betoneira.

Na época dos subsídios o eucalipto começava a dar cartas. As monoculturas florestais, eucalipto e pinheiro, caminhavam de mãos dadas com o despovoamento do interior. Não lhe chamem, por favor, desertificação. Vegetamos, é certo, mas ainda não somos uma espécie vegetal. Com o país a sonhos, modernos, construímos auto-estradas, urbanizações desreguladas, feias, cidades esquecidas da sua história e património (isso veio muito depois), e abandonamos, com enfado, a agricultura. Vieram as ligações público-privadas, os aviões, os helicópteros, as comunicações via satélite. Festejávamos (e festejamos) a época dos fogos com foguetes. Afinal, as bouças eram boas como depósitos de lixo, de abandono, e algum sexo à beira das estradas.

Eternas reformas adiadas, ou parcialmente esquecidas, eternos estudos e debates depois, chegamos ao caos de 2017. Ainda existe uma época definida para os incêndios (como é possível?), a denominada fase Charlie, que acompanha a silly season , sem saber que a silly season em Portugal se vem diluindo, alargando as suas fronteiras. Basta ligar a televisão. Parece que tudo falhou. Vem no relatório da comissão independente. Parece que fenómenos climatéricos únicos confluíram em conspiração odiosa. No final, continuámos a falhar. Falhámos cada vez melhor, sei do que falo, sou sportinguista. Só que desta vez morreram muitas pessoas. Demasiadas. Nas ruas, protestos, apenas em frente das televisões. Nem sequer uma onda de indignação, a não ser nas páginas amarelas das redes sociais. Dançam algumas cadeiras. Não tarda voltamos à normalidade dos estudos. 


burkini natal


outubro 15, 2017

A Catalunha, por exemplo


Não me interessa se o ditador é destro, canhoto ou maneta. Sé é pequeno ou se já torceu o pepino várias vezes. Não me interessa se é moderno ou proto clássico. Não me interessa se o ditador é um democrata. Essa t-shirt é vendida na Zara. Ou na H&M, não sei bem. Não gosto de ditadores nem de ditadorzinhos. Sei alguma coisa de mapas para saber que eles são obra humana. O mesmo serve para as fronteiras. Socorrendo-me de Cardoso Pires, sei bem que, como português, quando nasci, deixei logo de ser criança, passei a ter nove séculos. Outros sentirão o mesmo sob outro nome. Talvez não tão envelhecidos. Outros sentirão o mesmo sob outra bandeira. Talvez não saibam que as bandeiras são coisas de homens. Mas se assim tão importante uma bandeira e um país deixem que sejam os homens e as mulheres a decidir isso. Não decidam por eles. 

Radio Slave

they live:

modern-day communists...

setembro 29, 2017

Os náufragos




O mundo viaja.
Há mais náufragos do que navegantes.
Em cada viagem, há milhares de desesperados que morrem sem completar a travessia para o paraíso prometido onde até os pobres são ricos e todos vivem em Hollywood.
Não duram muito as ilusões dos poucos que conseguem chegar. 

Já o tinha escrito aqui. Estávamos a dever algumas ao Galeano.

setembro 28, 2017

Serviço público

passaram 30 anos desde a edição do último disco dos The Smiths:


em destaque todo o dia na Antena 3, serviço público do melhor, meus amigos:




setembro 27, 2017

Começou por engano (II)



De manhã, era manhã e eu ainda estava vivo.
Talvez escreva um romance, pensei.
E foi o que fiz. 

setembro 26, 2017

O nosso mundo é um parque temático



Acabam-se os banhos, os fogos, o roubo no paiol que afinal era um ferro velho. Fica a actualidade: a bola, as eleições, os bancos, os enfermeiros, a colocação dos professores, os eventos... um perpétuo déjà vu que nos remete para a ordem dos incrédulos. Resta-nos a satisfação íntima de saber que alguém vela por nós. 

setembro 20, 2017

Começou por engano


Nekalayla afirmava ter conhecido Jesus Cristo, um dia, quando andava no deserto, e que Jesus Cristo lhe contara tudo. Sentaram-se os dois numa rocha e o J.C. revelou-lhe tudo. Agora, era ele que passava os segredos a todos aqueles que os pudessem pagar. 

setembro 10, 2017

leituras



É improvável que “O Capital” seja muito lido em Sunderland ou em Greenwich Village: passámos das simplificações em panfletos para os despropósitos no Twitter. O dilema de Marx subsiste um século depois da revolução bolchevique, dois séculos após o seu nascimento e no limiar da revolução cibernética. De um lado, a fecundidade do capitalismo global na criação de riqueza. Do outro, a forma assustadora como reduz o trabalhador a um fragmento de homem e o arrasta com a mulher e os filhos para debaixo do rolo compressor.

David Reynolds, “O difícil legado de Karl Marx”, in New Statesman – Londres

No meio do marasmo editorial português, valha-nos esta colectânea de textos (de várias fontes) com a cortesia do Courrier Internacional

Pornopopeia (II)


Hoje amanheceu assim



a acompanhar um cacete mal cozido com manteiga, chá preto e limpeza da casa...domingo dos verdadeiros.

setembro 09, 2017

Os milagres e a minha bomba da asma



A minha bomba da asma não faz milagres. Na verdade é um dois em um: ventila através do fumarato de formoterol di-hidratado que é um broncodilatador, e previne a inflamação dos pulmões através de um corticosteróide chamado  budesonida. Não faz milagres, mas tomada regularmente ajuda-nos a respirar com normalidade e sem sintomas. Muno-me sempre da bomba quando está um jogo do Sporting por perto. Foi o que aconteceu ontem. Já se sabe, o Sporting é meio caminho andado para um pacemaker. Não convém esquecer.

A primeira parte do jogo mostrou-nos que a genica dos imponderáveis se dá bem com o planeamento de uma época, principalmente se o principal actor da mesma for o nosso Sporting. O jogo estava controlado, com o Feirense a fazer uma fantástica exibição, segundo o Sr. Freitas Lobo. Com a saída do Piscinas, não tendo nenhum defesa direito no banco (por onde anda o Ristovski?), tivemos que fazer aquilo que fazemos melhor: inventar. O Sr. Freitas Lobos tocou a rebate. Ainda estava a tocar a rebate quando a primeira parte acabou. O Ruiz bate pouco nos adversários, mas é um picanhinha em potência ao nível dos lípidos.

Foi com naturalidade que chegamos depois à vantagem. O Ruiz continuava à procura de um churrasco no relvado. E foi ainda com mais naturalidade que nos deixamos empatar. O Sporting tem destas coisas. A bomba estava por perto. Um pacemaker também não é difícil de arranjar. A malta, mesmo não religiosa, acredita sempre. E vale a pena acreditar quando a equipa de arbitragem ainda não precisa de ir ao oftalmologista. Nem todos os jogos tiveram esse privilégio. É marcar uma consulta...

(publicado originalmente aqui)