dezembro 30, 2008

sejam bem-vindos

Andamos em demanda. De nenúfar em nenúfar, de castelo em castelo, também, com o Céline a tiracolo ou a espetar-se numa vidraça. Um revés, ou nem por isso, soube-se que a padaria não confeccionará a dita festa de “passagem de ano”, muito menos essa porra denominada de reveillon(?), nem sequer sabe se vai passar de ano, tendo encomendado uma participação, nada insólita, diga-se, na twilightzone. Teremos regueifa no novo ano? E pão de água ou broa de milho? Haverá bolas de Berlim e natinhas ou pão com chouriço? E croissants que demoram 30m a deitar abaixo? E martini cerveja, por deus, e martini cerveja? Ninguém sabe. Na twilightzone tudo pode acontecer. É, aliás, defendido por alguns, que há muito tempo que por lá andamos… ah…aaah…aaaaah… (risos deles!) ponto.

dezembro 28, 2008

asseguro-lhe que não irei... e continuo a comer frango de churrasco para provar que sou sublime


Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá Carneiro, "Álcool"

bom dia


e bom passeio de domingo


dezembro 23, 2008

andamos assim mas podíamos andar assado

Novas aquisições da casa, já desfloradas, ou previamente desfloradas, algumas são repastos antigos em falta na prateleira. Contam-se cinco novos livros da(s) especialidade(s) (sendo que, com tomates, toda a gente os poderia ler), mais alguns dicionários e “Salónica Cidade de Fantasmas – Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950”, de Mark Mazower com a chancela Pedra da Lua, numa excelente e cuidada edição de 2008; “Boris Vian por Boris Vian, Palavras e Aforismos”, edição da Fenda, onde o autor (por quem sempre tivemos considerável apreço) observa que “há duas maneiras de enrabar as moscas: com ou sem o seu consentimento”; mais um Dostoiévski, “O jogador”, edição de bolso resultante de uma colaboração inédita (e em conta) entre editoras portuguesas, a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio D’Água, da qual já tenho outros exemplares, entre os quais a “Íliada” de Homero, traduzida do grego por Frederico Lourenço, sem notas adicionais, o que exige, algum trabalho, dedicação e alguma glória, como com o Sporting. Destaca-se ainda um volume em falta (entre outros) encontrado por acaso e baratinho da “Nova História da Expansão Portuguesa – O Império Africano 1891-1930” coordenação de A.H. Oliveira Marques, direcção de Joel Serrão e Oliveira Marques, e “ A Europa e o Mar” de Michel Mollat Du Jourdin (este tipo tem nome de templário), da Editorial Presença, colecção dirigida por Jacques le Goff. Ah, e umas coisas em alemão para armar ao pingarelho. Poderiam ser sugestões. Poderiam. Mas não estamos aqui para sugerir nada. Para o Natal, que por acaso é depois de amanhã, pediu-se (para além da volta do menino Jesus) uma série de livros (e revistas) porno, edições javardas e antigas. A Internet tragou todo o glamour da pornografia, para além do facto de não propiciar ou permitir a colagem das páginas, como outrora...

dezembro 22, 2008

no fim de contas é isto


A menopausa é quando a gazela que traz as crianças é abatida por caçadores bêbados.

Homer Simpson respondendo a Bart

dezembro 21, 2008

hoje amanheceu assim

Apesar de o impacte de Schopenhauer neste blogue ser cada vez menor, isso não compromete em nada o pessimismo constante a que o seu autor está sujeito ou, pelo menos, não o (des)acentua ou desobriga de alguma forma, sendo que o contrário também poderia ser considerado verdade. Eu também sei de coisas, que diabo. E apesar de tudo não vou ao psicotécnico

dezembro 17, 2008

dezembro 16, 2008

o Joe Pesci não precisava destas merdas

Soube que se aproximava o natal pela programação do “sozinho em casa” para o fim-de-semana. Fui-me logo e exclusivamente enroupar de terra do nunca. Longe.

dezembro 09, 2008

hoje o dia foi assim

 Monty Python

e a carpete, seguindo as directrizes do sr. Tom Waits, parece que precisa de um corte de cabelo. É de assinalar, em sequência passada e com repercussões, que o piano andou a beber (muito): não fui eu…não fui eu…

dezembro 05, 2008

“ a little riding, driving, eating, etc. (not forgetting smoke) fill up the day"

A frase título é de Edward Fitzgerald (citado por Sebald), por acaso um sr. inglês que traduziu no séc. XIX as "Rubaiyat" do poeta persa Omar Khaiyam (1048-1131). Encontrei uma vez num alfarrabista de Coimbra as “Odes ao vinho” um estrato (pensei à época) do longo poema traduzido (provavelmente do francês e muito provavelmente pouco consoante com o original), e fui a correr para casa (enquanto lia em andamento o que não é fácil, pior só mesmo correr depois de beber muito absinto), onde me fechei, sem saber muito bem porquê, mas tenho essa tendência para “fechar”, lendo vorazmente as cerca de (acho) 30 páginas e à noite, ainda a correr, lá me emborrachei com o sr. Omar. Se fosse hoje, com esse nome, ia ser difícil. Acresce que o sr. Omar também foi matemático, filósofo, astrónomo e frequentador de cortes, para além de ter conhecido alguma malta da famosa seita dos “Assassinos”, mas isso é outra história. Podem igualmente encontrá-lo no romance histórico "Samarcanda" de Amin Maalouf. Já agora sobre os “Assassinos”, podem consultar “Os Assassinos” de Bernard Lewis e ler “Alamut” (a sua famosa fortaleza) de Vladimir Vartol um sr. Esloveno com nome de basquetebolista amador. A tradução das Rubaiyat até está na net, vejam só, aqui. Quase me esquecia, a música da caixinha é Scarlet Arch dos srs. "And Also The Trees" e o som, como podem verificar, é muito semelhante ao das minhas cassetes antigas, algumas aliás, mais velhinhas que o tema. Guardo-as com muito carinho, muito mesmo, até que a fita desfaleça e rompa, como tudo na vida… 

dezembro 02, 2008

Dezembro é um mês evidentemente amargo

E por assim dizer castiço. Aos repelões açordam-se os javardos na lareira dos centros comerciais e outros acotovelam-se nas ruas direitas deste país a babar-se constantemente para as vidraças translúcidas onde maduram os manequins e as meninas tutti frutti. Finalmente, depois de muito caminhar, uma rua… duas memórias de árvores recebem a mijadela atenta de um canino e seu dono. Ofegante, sento-me e observo um velhote a ler as notícias da semana passada, onde se enxergam em fundo baço numerosos destroços e alguns corpos estendidos, ou o que deles resta. Parece que essas ruínas e corpos, a mim pareceu-me pelo menos, não são (ou não foram) encaradas da mesma forma que outras ruínas e outros corpos em chãos diferentes, noutros locais. Talvez seja uma questão de proximidade ou de indiferença; talvez não passe de um lugar comum esmiuçado às postas em Telejornais com a duração de longas-metragens. Pensava nisto e já caminhava. De repente uma tristeza que ainda não era bem angústia percorreu-me a espinha, “a realidade ultrapassa qualquer ficção”, disse, creio que em voz alta. O rapazinho que me seguia com o olhar sorriu e abanou a cabeça ligeiramente, à laia de coitadito, exactamente da mesma maneira que um outro o fez há uns anos quando caí, a vinte à hora, de motoreta. Foi perto do mar e o rapaz olhava-me e oscilava a cabeça do alto do seu triciclo. Já refeito, relembrei uma frase de um texto do Alfredo: Essa tristeza que não é bem angústia e ninguém a colhe em seu seio. Quando finalmente aterrei na padaria já não tinha tanta certeza de ter vivido aqueles momentos, deambulando ao acaso no crepúsculo, nem sequer que Alfredo alguma vez tivesse escrito aquela frase. Ocorreu-me Dylan Thomas, não sei porquê, talvez pelo “em seu seio” e pedi três pães de água e uma Bohemia. “Bohemia não temos”, ainda escutei, seguido de um “não há direito, aquele golo anulado ao benfica”. Saí de campo com letra pequena e agarrado, por uns segundos até suspenso, ao cordel invisível que nos suporta a vida.

novembro 28, 2008

estar sempre na vanguarda de qualquer coisa

Estamos, parece, na vanguarda da energia eólica no mundo. Mas não era disso que eu queria falar, nem da denominada “energia inteligente”. Todavia a realidade das fontes de energia renovável recorda-me, nos dias que passam, o ac(l)amado clube de formação, epíteto vulgaroide para Sporting e a marca global que, se diz, é o ac(l)amado Benfica. Duas faces da nova paginação actual que concorre para um léxico gramatical com aspirações, não à conspiração dos nossos sentidos, mas solenemente para um sólido e definitivo nada. A páginas tantas, voltam os moinhos de vento com D. Quixote e Sancho e uma mão cheia de, como dizer, um tal de “esférico à flor da relva e a entrar sempre na mesma baliza”.

novembro 25, 2008

estava para aqui sem nada para escrever e a pensar no jogo de amanhã


Mesmo em dias de cozedura incerta, acredito na velocidade do nosso mal-estar: tudo passa. Mesmo assim esboço um incorpóreo sorriso quando me deparo com a “polémica” que dramatiza o “caso” dos professores e não o “estado do ensino”. Brilhante como sempre, o governo, este ou outro qualquer, prima pela relevância da reforma, ou, se quisermos, da pungente necessidade de mudar. Ao arrepio de modernidades sem pança, bracejo contra essa mundana, nas palavras de Baptista “com casa quase à borla em Lisboa” Bastos, idiossincrasia. Primeiro, a metamorfose encaixa um rolo de simplicidades para os putos, com árvores estatísticas que nunca mais acabam. Depois a cena dos profs (como agora se denominam). Lembro-me nos setentas quando os pais de um amigo pedirem “licença” ao Sr. Professor (à época) que era director da escola para julgar a necessidade de um BETA para os filhos, pese o facto de lhes encherem a barriga diariamente com notas de 100 escudos, na altura (uma fortuna) de cor azul. O trajecto foi de 80 a -8. Mas ainda hoje existem os Srs. Professores (oh, da velha guarda!), os professores e os outros, já para não falar da malta das aulas extracurriculares que trabalha para caralho (andando de nenúfar em nenúfar) por tuta-e-meia. O abrir da porta do 25 de Abril trouxe quase logo a liberdade, democracia e o multibanco com o crédito a reboque. Não éramos menos que os outros. A guloseima espirrou um rato. Ainda nesta vida, o professor redundou num repasto de proactividades, eficiências e competências alargadas, devedor de um profundo paradoxo: como acompanhar o comboio europeu (e de leste, acrescento) rapidamente e sem se notar que não irá ter qualquer reflexo no futuro desses putos, como aliás já se verifica? Note-se: já se verifica. Quando os pais ainda arranhados pela liberdade, adormecidos ainda no banho maria da ignorância em grau satisfatório, mas já castigados pelo consumo, repararem que não se verifica o “não somos menos que os outros” e que vivem um logro e que os putos pouco sabem e nem interessa muito o que sabem ou deixam de saber, cá estaremos para ouvir as sentenças soporíferas dos nossos analistas, e já os políticos (actuais) estarão a milhas e virão outros. Não sei se já repararam mas os políticos emanam da sociedade e esta não tem (já agora alguma vez teve?) elites ou coisa parecida. O resultado são uns tipos forjados no marketing e pouco mais (uma fatiota sempre ajuda). E também ajuda alguma burrice para “comunicar” as suas “ideias”. Quanto aos profs (eu não sou prof meus – meu deus o que sou eu afinal que já não me recordo?) mas ainda recentemente me deparei com essa espécie exótica e firme do Sr. Professor (com letra grande), na caixa geral de depósitos e no café, essa raríssima arara à imagem de um Sr. Eng, ou do Sr. Dr., das quantas ainda existe. Ainda existe. Ainda passa à frente dos outros. É que, não sei se sabem, ainda se baixa a bolinha para alguns, ainda se cospe na sopa de outros, e o respeitinho ainda é (para alguns) muito bonito. 

novembro 21, 2008

não será exagerado afirmar que

um vago castanho trémulo conspira em diatribes vestindo as árvores lá fora. Tendo por hábito (ou vício) ler várias obras ao mesmo tempo, e necessariamente de temáticas diversas, foi sem surpresa que detectei um outro fenómeno sub-reptício embora a ele inteiramente ligado. As leituras “variadas” são consequência (esperada) e prolongamento dos livros espalhados entre envelopes, canetas, jornais e, por exemplo, pastas de chocolate preto; associadas a uma curiosidade mórbida prima da angústia que sentiu uma vez Almada Negreiros ao entrar numa livraria ou biblioteca. O fenómeno é outra coisa. É um poder infinito associado a um conjunto de ligações e matrizes que acompanham os livros desde sempre. Isto sem falar das referências, das semelhanças, do permanente reescrever e das viagens. À bulha com “Os Emigrantes” de Sebald, entrelacei-o sem saber muito bem porquê, com outra (sua) obra “Os Anéis de Saturno” a que já aqui aludi. Facto é que esta me terá levado a Thomas Browne (o qual dificilmente se encontra aqui no burgo) e a Bioy Casares num jantar com Borges e espelhos e uma enciclopédia e Uqbar. Hoje, olhando esse “vago castanho trémulo” abri num acaso de milénios o livro “Ficções”, com a chancela da Teorema, e lá está o primeiro conto (que eu havia lido na Obra Toda, editada parece-me, pelo Círculo de Leitores) denominado “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Leio que Hume notou definitivamente que os argumentos de Berkeley não admitem a menor réplica e não causam a menor convicção. Este ditame é absolutamente válido para a Terra; absolutamente falso em Tlön.
Sobre o conto que entrelaça vários mundos, enciclopédias, espelhos e biografias, procurem-no e nunca mais vão parar. Quanto à citação, aqui na terra de hoje, teme-se pela sua veracidade opaca mas terrivelmente vazia.  

novembro 19, 2008

na demanda do labirinto antigo

Por acaso estou farto de coisas que não nos fazem falta. E mesmo com os livros, exceptuando uma mochila maior, não pretendo encenar uma grande biblioteca. Conquanto, como é sabido, esta cresça para além do desejável, já que nada há a fazer contra o meu amor aos livros. Apesar disso “tenho todos os sonhos do mundo” e talvez por isso me custa observar o estado de degradação, para não falar de inapelável morte, do famigerado tupperware que nos aconchega e agasalha nestes dias. Nesse sentido, não é inédita a roupagem de algumas palavras. Como “democracia”. Esta à força de tanto ser “mimada”, repetida, aflorada, “sugerida”, defendida e patenteada, tornou-se presa fácil dessas nobres luminárias que nos pastoreiam os dias. Perdeu o sentido, ou ao repetir-se redunda num sinistro nada. Acontece o mesmo com outras, a saber: ambiente, património, desemprego, emprego, felicidade, consumo. Dir-se-ia que, de forma já não velada, se aculturou, parafraseando Baudrillard, o tupperware na totalidade. Vejam bem, a coisa já não é do domínio do fantástico, da ignorância ou da prostituição faminta das actividades. Já não é fantasmática, ou se quisermos, um conto dentro do conto. Já não existem barricadas, pois não?, bem o sabemos, ambos os lados ou mais, incorporados no mesmo invólucro, sofregamente necessários e dependentes, na realidade estruturados (muito bem estruturados) por ligações sanguíneas e jamais os elos de antigamente. Já não se trata de uma projecção. É tudo o que temos. Até isto que escrevo e mais o acrescento: às vezes um homem sente-se emparedado por ruínas.

novembro 15, 2008

o abismo para além da porta

Custa-me pensar que alguém escreva, sem contar com o meu colega gato, “àcerca”, sem uma cerca por perto, num livro de “aconselhamento” académico. Não sei onde, mas algures, deve encontrar-se o último traço da cerca e, amiúde, vários jovens sobem à última árvore. Enquanto colho as tangerinas, diospiros e castanhas, e mais além salto uma fogueirita, sonho com o prazer imenso e irrazoável do dias a dias. Entretanto os livros estão pendurados na corda de secar. Recordo a sobremesa com ênfase no Fernando Pessoa e seus amigos imaginários. Por lá terão passado desapercebidos, Baudelaire, Whitman e o sr. Rimbaud, sem contar com a madame Bovary e o porteiro das desoras com o Sr. Borges a tiracolo. Nem o Yeats conseguiu assomar. Pudera. Fiquei nas Berlengas da tasca com o Cesário de sempre:

E eu desconfio, até de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e se abisma.

novembro 11, 2008

os dias de Saturno


"Melancolia", Dürer

Após o que me pareceu ser uma curta voltinha de bicicleta, pensei, embora sem fé que o sustentasse, dar à posta algo sobre as lombrigas que nos trespassam por estes dias. Os poleiros e outros abrigos redundam em silêncios opacos e gazeteiros pasmados. A polémica do sr. Pinho e da Sra. República da Madeira levaram-me, contudo, em contramão durante praticamente 500 metros e algum passeio à mistura. Irremediavelmente sem encontrar a padaria, pensei em voltar às pilhas de papéis, sim, porque algures entre milhares de papéis, ao que parece pilhas e pilhas a forrar um escritório, é Sebald quem nos revela, a páginas tantas do seu “Os anéis de Saturno”, encontra-se Janine sentada, completamente rodeada de papéis e livros, e a dado momento, parece a Sebald estar na presença do anjo da "Melancolia" de Dürer. Tudo isto me recordou um escritório no monte, lá longe, e também um barracão por onde se chegava da casa ultrapassando um pequeno matagal a que chamavam jardim, cheio de ferramentas, discos e malas de viagem repletas de livros de banda desenhada e de Cowboys. Se calhar, não me recordo, seria muito provável vislumbrar-se um anjo da melancolia.

novembro 06, 2008

Por exemplo: a tristeza no olhar…

Apercebo-me, algures, no lastro dos dias, que nos mapearam os afectos. Para além disso rompi superficialmente o dedo e filosoficamente perdi sangue. As crises, à escala da dependência global, questionam as instituições. Agora, e se calhar ontem, o sentido escorre numa promessa de regular uma tal de globalização. Na padaria diz-se que sim. Quando estas coisas ganham um nome arriscamo-nos a ser por elas violentamente esbarrados, sendo certo que estas acabam a servir de suporte ao reportório sem fundo dos políticos. Crise é outra das palavras. Em certa medida, um trajecto retórico sem substância, e independentemente de questões normativas, redundando num futuro inútil do resto; um constrangimento, como se diz na televisão, dependente do “apaziguar” ou do “correr mal” num desafio “difícil” da “ilha das cores”. Uma comichão na omoplata. 
Eu também vi um sapo a rasgar horizontes: numa iniciativa de afectos, com marcação homem a homem, normalmente num campo de batalha, ou como se diz, no teatro de operações. 

novembro 03, 2008

uma estória: a "banquinha" da nossa esquina

Era uma vez, e não se sabia. Depois do sr. Eng, vestir a fatiota de vendedor ou correspondente comercial do Magalhães para a América latina, agora, logo agora, que se afirmava à tripa forra que não haveria pão para pançudos, tinha que aparecer um BPN (o banquinha) para engrandecer a veia estamos aqui para o que der e vier, e dar uma forcinha à banca da esquina, na qual, parece, era permitido jogar às cartas clandestinamente (a dinheiro e sem dar ciência) e a servir uns pipis de cepa caseira, não atendendo às santidades reguladoras (segundo consta, até tinham já uma sucursalzinha em Cabo Verde). Malandros. Ainda assim, num gesto de filantropia genial o sr. Eng mais uns quantos, adquiriram a dita banquinha, mas apenas e só a desdita. Explico: a banquinha faria parte de um grupinho jeitoso, com outras banquices e reportórios, alguns diz-se, até eram legais, davam lucro e tudo. Assim sendo, o grupo de filantropos, enlevados de tamanha galanteria, ficou apenas com o prejuízo (a banquinha) e deixou o resto (do grupinho) a esvoaçar no paraíso a que chamam de “liberal” qualquer coisa. O povo, frenético, clama já pelo sr. Obama, do 5º esquerdo, rapaz de potencial enriquecido pelo fogo da virtude, e que ainda por cima não bebe. E não é só na padaria.
Não são inúteis, não…

outubro 31, 2008

Novas oportunidades, benefícios e aprendizagens – estou aqui para passar o tempo e não matar ninguém: bruxo!

O sermão para as criancinhas grandes cá no nosso “burgo” ainda vai a sair para o adro. Melancólicos (os avinhados do Eça para não saltarmos mais atrás) julgam-se por estes dias “modernos”, “informados”, “livres”, “sinceros”, “inflamados” e com abertura suficiente, parece-me, para encaixar com glória o repasto que lhes é servido, obviamente porque o merecem. O que mais me impressiona é aquele olhar perdido, húmido e fatídico usado pelas nossas criancinhas grandes nas conversas. É claro que a sua religiosidade é branda e celebrada na instalação fantasmática do sr. Eng., com as propostas adjacentes e os trabalhos a solo das recriações tranquilas, retiradas do estrangeiro e com direito a estrangeirados actuais. O culto recorda-me, para não exagerar muito, a frase bacoca de um viajante estrangeiro no Portugal de setecentos, o sr. Saussure (estes eram muito tendenciosos e “civilizados” mas às vezes…), quando este observava toscamente que os portugueses “embora completamente ignorantes, gostam de se fazer passar por sabedores”. Na padaria, uma velhinha criança, reclamava a nossa atenção para as dádivas “à banca…à banca, com o dinheiro do povo”. Já o sr. José, divagava com primor, pelas avenidas avinagradas da política. Depois da matiné do pãozinho santo recolhi-me sem demora e, contra as prerrogativas em vigor, não enlouqueci. 

outubro 29, 2008

o dia a dias com o Chatwin e outros a tiracolo

Parara de chover e eu imaginava os dinossauros despreocupadamente a calcorrear a terra. Claro que relia "Na Patagónia" de Bruce Chatwin, obra que me acompanha na loucura mais desvairada dos dias, já ensebada na mochila. Retiro-a e leio, na companhia igualmente imaginária de W.G. Sebald, algures numa estação de comboios, talvez em Coimbra, talvez Milão, talvez Zurique, talvez perdido no condado de Suffolk, ou na gare de AUSTERLITZ, de qualquer modo, seguramente ainda longe da Patagónia, leio: 
Parara de chover e chegara o momento de eu partir. As abelhas zumbiam à volta das colmeias do poeta. Os damascos amadureciam com a cor de um sol pálido. Nuvens de lanugem de cardo pairavam no ar, e carneiros brancos felpudos pastavam no campo.
A seguir, eu, ele, acenando ao poeta seguimos caminho: todos os dias, sem a certeza ou a relevância de sabermos a verdade, ou se por aí haverá ainda mais um SUL que nos aconchegue, nas palavras de Cendrars, a nossa tristeza.

outubro 28, 2008

aos amigos e amigas do inútil

Os Brasileiros, inúteis e copofónicos como nós têm coisas destas. Esta (1905 - antes da repressão do  asséptico-com consequências conhecidas) recorda-me uma publicidade da Guiness (muito posterior) que insinuava as propriedades “saudáveis” da cerveja preta (verdadeira) até para as grávidas. Não duvido um segundo. Em outros segundos, sem o “diabo que aconteceu para criar uma montanha”, o inútil reafirma um: cheers

outubro 27, 2008

leva a tua luz e agarra o meu braço

Porreiro era uma passagem, em silêncio feliz, para uma qualquer Índia indefinidamente fora de voga. E já agora, enquanto o tapete rolante dos dias, em versão Barco do Amor, não nos consome a patetice por vozes únicas e passados longínquos, poderíamos formular uma nova história com base nos nossos únicos (e futuros) canastros. Afinal já sabemos muito disto, da margem que nos acolhe em quedas prodigiosas e aventuras que não lembram ao diabo. Por acaso, não recordo onde deixei o chocolate preto muito “valioso”, provavelmente estará adormecido numa estante, com os diabinhos do coro a ronronar os últimos sons de um disco do Espadinha noveleiro e disforme, a remoer-se à pala dos Ornatos. Em todo o caso, um Wagner discreto adormeceu a tarde mais cedo. Eu sabia. No café, o Zézinho desafiava qualquer um para uma onomatopeia em Superbocks ao desbarato: se não fosse o gesso e a perna partida era gajo para desmascarar o engenheiro sem assinatura. Verdade que o Toninho ainda lhe tentou vender uma promoção da TV Cabo, mas foi irremediavelmente corrido com os últimos tremoços da temporada, e nem o Guilherme Pop, nosso senhor, lhe valeu. Não temos onde nascer. 
Estar vivo já encerra espessura temática suficiente para amarmos o irrisório.

outubro 24, 2008

Esqueçam as compilações e concentrem-se nos epílogos românticos da nossa desgraça

Da janela que me impingem, vejo um taipal em constante terapia de imagens e sons, pequenos grupos devidamente estratificados de emblemas prateados e constelações de egos em sintonia com o ruído vigente. Já não ouço. É o burburinho que é silêncio mais vazio (já o escrevi algures). Mais uma bebida entretida entre alguns jornais atrasados e mais recentes. Uma bolha: o sr. Greenspan (presidente da reserva federal americana), aparentemente sem se rir muito (em rigor às gargalhadas) pede desculpa e reconhece que falhou na regulamenção do sistema financeiro dos E.U.A. Parece que acreditava piamente na auto-regulação dos mercados. Neste ponto (sem falso pretensiosismo) está o inútil anjo a rebolar-se de tanto lamber o pêlo. Ali ao lado, afinal, o sr. Haider, líder da extrema-direita (extrema e direita?) austríaca, homofóbico praticante e militante conservador e ultra qualquer coisa, revelou-se uma caixinha de bonecas depois da sua morte. Não interessa para nada a sua inclinação sexual, mas neste particular, a sua relação coloridíssima e de anos com o amigo Petzner, um jornalista de moda na área dos cosméticos é de bradar (e parece saída de uma história introspectiva e mal acabada do Walser), sem contar que em apenas 5 anos, o dito, provavelmente, pelos seus conhecimentos em perfumes e cremes já era o seu nº 2 e o feliz eleito para o suceder. Em tal repasto conservador não se deve meter o extintor. 
Dias antes, sem piedade de nós, o sr. Wolfowitz (amigo não colorido, diga-se, de Bush), presidente do FMI, já havia pedido desculpa por algum mal entendido e favorecimento à sua namorada coloridíssima, sem contar com as borradas coloridas do açougue que representa com “intuição”. 

Na padaria pouco se sabe disto. O Benfica empata na Alemanha em jornada de liga dos cavaleiros de são torcato e mais, só mesmo o sr. Magalhães que afinal é um computador coloridamente situado perto de uma roseira. O sr. Carlos, atempadamente, insurgiu-se com tamanho galanteio e falta de rigor sobre outras demandas de importância inadiável e sob protesto não bebeu o martini. Ficou-se por uma cerveja.  

PS: acabo isto com um raro: José Cardoso Pires, um anjo ancorado

o caso do telegrama e de uma entrevista que não vi e depois cheguei a casa

Já percebi, o sr. Freitas Lobo (a voz do regador) insinua que existiu uma certa e determinada “velocidade vertical”, entre carícias, e um outro fala da identidade da equipa em “regressão transaccional”, mais o “grau de dificuldade” e um “défice de pontuação”, possível; observam estes políticos da bola, com a sensibilidade do granito e do “visto que estamos”que, parece, se observa o espírito de “um jogo” dependente da “prestação” e de um “fechar de espaços”, em suma, de um bloco. Todos estes relatores politizados ministram com a identidade refastelada da fatiota acompanhada de uma t-shirt de gola em bico. Com “personalidade”. De facto. 

outubro 23, 2008

"não desistem...não desistem..."

Devo este último registo a um distúrbio com as horas e, fundamentalmente, a um inócuo transe das (para mim óbvias) transmissões televisivas abertas. Embrulhei-me e percebi tarde que em “Kansas anymore”. Quando cheguei ao jogo, tarde e mal servido, fui recebido com um “estes tipos são russos, não desistem, não desistem…são… russos… são como os indianos ou os …chineses”, dizia o sr. André, de pé, de pé em riste, como bom lampião a afagar a esperança da nossa morte. Queria dizer-lhe que não, que eram “ucranianos” mas não tive vagar. Na TV, assim de frosques, o Sporting não jogava grande coisa e mantinha um low-profile em doses massivas quanto baste para adormecer os ucranianos, um cavalo garrano, e a nós, claro, porquanto em dez minutos já me apetecia uma segunda cerveja. Quando dei por mim estava a pontapear a mesa em jeito de ritual e a ressoar aquela amostra de nadas em teatralidade futeboleira. Parece que é assim que se ganha. E, afinal, o(s) tipo(s) eram “brasileiros…estes tipos não desistem…não desistem…”

outubro 20, 2008

"nunca seremos muitos"- lido algures na baixa-mar

"Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas"(1956)
Candido Portinari
“Baseado em estórias verídicas,o caos insosso em que vivemos pastoreia, sem dúvida, uma vingança futura, pois, para além dos portões, o desviado, o atropelado, voltará, sim voltará, já sem a ternura a carregar o banjo”, dizia o Alfredo à imprensa fraudulenta que o não ouvia, recorrendo-se de um manual manuscrito de teoria suburbana encontrado algures durante a maré baixa. Eu passava perto e lembrei-me daqueles que nos vêm comer à mão, de beicinho, por estradas tão parecidas com as nossas, numa redundância de arrabaldes intermináveis e silêncios que de tanto ensurdecer se tornam maduros e velhos, até que por fim o murmúrio escorre das paredes brancas sem mais arte que uma casa vazia.
Aos passos inflamados injectei alguma ousadia e entrei na padaria com a trova toda a escurecer lá fora. Expressamente para mim, a igreja insinuava-se como uma silhueta recortada em fundo laranja e amarelo, sinal que a noite se avizinhava e a terra continuava a fluir, apesar de naquele oeste o sol morrer de memória, todos os dias. Alimentei a voz com esse aconchego que nada mais é que um lugar sem ninguém, e gritei: deserto! Salvaram-me os sinos, a criptografia das relações sociais e um acrescento: “três pães de água, por favor, torradinhos”…

outubro 18, 2008

outubro 16, 2008

como se diz por aí…uma maneira de estar na vida

Chove (oh diabo!) e a noite é acolhida na doença da música, and i`m lost in the bottom of the world, canta o Tom Waits com permissão para voar. Provavelmente ficarei perdido cá por baixo a acabar um estudo integrado nas horas mortas acerca do vinho tinto maduro. A escolha, baratinha, quase três euros no ponto verde(?), recaiu num Porca de Murça fácil como um domingo de manhã, acompanhado pelas questões mais prementes e irreflectidas acerca dos Diários e a Carta ao Pai de Kafka, pelo menos era nisso que eu pensava enquanto verberava sobre as potencialidades musicais da net (vulgo sacadisses) e mais qualquer coisa entre pataniscas. De resto, adivinhava-se um Olimpo na inspiração divina e amadora do gato, por estes dias de nome Patoca, em semana ou mês, anti literários. Vai daí, apeteceu-me uma Bohemia fresquinha e 200 episódios da Liga dos Cavalheiros (é uma cena inglesa, se não conhecem procurem) já com domingo à tarde incluído. Este último, pasme-se, desejo não atendido. 

Ps- nem uma palavra sobre o orçamento num cenário pequeno com base na ordem de.

é preciso ir...ir

outubro 14, 2008

sem comissão de festas

À minha esquerda um “deixei a cidade” aclimatiza o pensamento. Não deixei. Com a ansiedade de um hipocondríaco, ainda por cima dos pequeninos, regozijo-me com a cidadela indispensável que nos redoma os dias. Parece que o arranjo diário das adições e pessoas decentes nos acotovelam na demanda da padaria. Celebro a entrada com um ênfase destituído de guarda-chuva e ninguém repara. Pudera, apenas três pães de água nos separam da Califórnia climatizada. 
Em passagem, duas tabuletas assinalam duas viperinas filas. Toda a gente se achega à primeira que diz “fila única para trocas”, bem parecida com uma outra ”fila única para carregamentos”. Todos se acercam da primeira, “única” e “fila”, enquanto eu, observando ambas descarrego o carregador em três beatas, uma ninfeta e duas escaxadinhas. Todas analfabetas. Entretanto o Sr. João, ou Carlos, não ouvi bem, arrazoava na fila errada (e certamente vestindo o dominó errado…), aproveitando a serventia do servidor da gleba (conhecido do Sr.) atrás da portinhola de vidro. Não tinha mais balas. Simulei em guarda com a atenção num sapateiro que fazia óculos para cavalos. Mas já era noite e o hábito era uma gravata. Aprumado.

outubro 13, 2008

um processo inútil de chegar a Borges sem passar em Kafka

Antes de recomeçar a morrer, na verdade, um processo sobre o qual nunca se desliga a máquina, gostaria de reafirmar a inspiração, em todo o caso comovedora e por isso confrangedora, que alguns livros nos propiciam. Na verdade não será tanto a inspiração mas um retiro, uma caixinha do mundo em ponto realmente pequeno e voraz. Reconhecer isto e voltar, torna impossível não (o) rebater. Refrear será, à falta de jeito, reflectir. Um saco cama de tormentas. A acreditar no silêncio mais vazio da cerveja e na jura de entremeio, imagina-se uma paranóia de alguém “fazer um chapéu de um [nosso] rim”. Qualquer coisa assim se apanha no invólucro ranhoso da nossa RTP2. Seríamos muito piores se não remoêssemos na crosta da ferida. 

outubro 11, 2008

"a ascensão irremediável das lavas do sobreconsciente"

Um conjunto inusitado de coincidências e espelhos, um encontro fortuito e inesperado com o Alfredo e, um outro não menos estranho com uma estante, levou-me, mais uma vez, à prateleira número 4 referente às obras de língua estrangeira e, por ordem alfabética, inesperadamente, à literatura espanhola. Localizei, sem delongas o Sr. Henrique Vila-Matas, por estas paragens erradamente colocado, já que se encontra disponível um pequeno espaço dedicado à literatura catalã, não necessariamente escrita em catalão, e retirei a “História Abreviada da Literatura Portátil”, edição Campo de letras de 2006, traduzida (e bem) por José Agostinho França. Não mais trabalhei. Comecei a ler. 

Escreveu, parece que escreveu, George Antheil, acerca do seu odradek (talvez Golem, talvez duplo, talvez uma projecção
O inútil é belo porque é menos real que o útil, que se continua e se prolonga; ao passo que o maravilhoso fútil, o glorioso infinitesimal, fica onde está, é apenas o que é, vive livre e independente. Como a mera existência do meu odradek, que é esse alfinete que tenho diante de mim, espetado numa fita
In “História Abreviada da Literatura Portátil”, Henrique Vila-Matas, página 54.

Ps- Dou comigo na rua (sim, parece uma rua), imaginando-me de máquina fotográfica (à minha direita) e fotografando-me. 

outubro 09, 2008

Morte a(o) crédito!

Os Tones sem jeito proliferam agora na política portuguesa. Nem sempre foi assim. É como a falta de gajos com jeito para as gajas. Basta atentar na padaria, na rua e no autocarro. Simplesmente não colam. Relativamente (e nomeadamente) ao assunto da morte a crédito lancei no título um isco literário fácil (sim, é do Céline sem dion). O sistema finalmente come a própria cauda. Já não se trata de um corte (aliás, previsto nas entranhas do sistema), mas de um episódio que já assoma o âmago do bicho. Ora o bicho não é uma estrutura única, mas um conjunto bem calcetado de estruturas (leiam o Baudrillard).
O fundo pintado, julgo, a negro na desmama televisiva (segundo me dizem) não passa já, e ainda, de pasmo. Nem é apenas entretenimento. É o “quem tem cú tem medo”. De resto, como diz em nortenho um tal de Marco António tone, “apraz-me!”. Já agora, sem acaso épico, não deixa de ser vistoso observar os países liberais “ e outros que tais” (vide Visconde da Apúlia) do “menos estado” recorreram ao dito para, “manifestamente com respostas para a crise” injectarem uma cauda fantasmática. E então, não era isso as nacionalizações do PREC?
Como diz o Tim sem se rir: “gosto da praia à hora das gaivotas”. Diga lá Tim?

outubro 07, 2008

A páginas tantas como diria um amigo...

Passeio nos dias a ler sem manual no sapato. A páginas tantas não acordo e releio (ou sonho) uma página do “Meridiano de Sangue” de Cormac McCarthy: 
O desenlace foi o habitual nestas histórias. Confusão e pragas e sangue. Continuaram a beber e o vento soprava nas ruas e as estrelas que haviam estado na cúpula do firmamento jaziam agora a oeste rente à terra e aqueles jovens desentenderam-se com outros e foram ditas palavras que nenhuma outra palavra podia emendar e ao alvorecer o rapaz e o segundo–cabo ajoelharam-se junto ao rapaz do Missouri que se chamava Earl e chamaram-no pelo nome mas ele nada lhes respondeu (…) Não há na taberna alegria comparável ao caminho que lá conduz (…).
Ao caminho, sem sebes e desertos, pode sempre comprar-se por UM euro este e outros desvarios literários. Traduções limpinhas (esta do Paulo Faria está fabulosa e é cortesia da Relógio de Água editores – o sr. até com o autor contactou). As duas obras anteriores também são aconselháveis, para dizer pouco: “ O Pêndulo de Foucault” é um livro fabuloso do Sr. Humberto Eco, com a chancela da Difel, e o anterior “ O amante” da Duras é, disseram-me (a mim a gaja sempre me pareceu uma rosca de padaria velha), para se ler. Espere, proximamente, pelos idiotas. Na revista “Sábado”, às quintas(?). Eu cá não compro a dita e passeio sem mágoa nos dias, entre sebes e outras livrarias.

outubro 02, 2008

The Smiths - There is a light that never goes out



Disco pe(r)dido pelo anjo inútil para dedicar a alguém muito remarkable (e de corrida) num dia que pode parecer, mas não é, igual aos outros.

setembro 29, 2008

Para acabar de vez com o anjo...


Por acaso, não tenho a humildade ruminosa dos escribas do templo que nos amancebam os dias em palavras. Sou apenas medíocre. E quanto ao mais, nas planícies singelas da calçada muda, interrogo, sem artifício, a minha inusitada passividade. Estou, por assim dizer, incluído numa "sociedade de consumo" que Baudrillard atempadamente descortinou. Mais, só se for o cartão de visita emoldurado em sensibilidades de mármore. O mármore aqui não inclui as "falésias" do sr. Jünger (podem procurar na net...). Talvez seja granito, apenas granito.

setembro 28, 2008

Ainda é hoje?

Ainda é hoje e com o sabor da cerveja na boca, mais uma vez, desenho a angústia de uma personagem em blogue. “Cuidado com os erros”, penso, ainda sem saber como (re)lembrar que a praia das palavras é coisa de todos os dias. Ainda (será?) hoje aprendi umas tantas e, sem passar na casa partida, estatelo-me na devassa diária de todos os livros. Uma merda para todos reflectirem. No “Câmara Clara” de hoje, um programa da RTP2 que de fugida vislumbro, a expensas da derrota dos verdes ontem (não há domingo desportivo que o valha), discute-se a leitura como objecto “programático”. Disforme, o domingo encerra-se no vácuo das interrupções dos participantes na lida. Parece que a senhora “ama os clássicos” e entretanto “programa” as leituras dos putos. Acabo a cerveja encurralado entre um pensamento virgem e uma viagem à casa de banho. 

GNR - Bellevue

setembro 25, 2008

Os últimos

Por acaso a empresa RTP, num soslaio de putisse desmedida lá tentou açambarcar a Liga dos Últimos à inexistente RTPN. Saiu-lhe a fava (já sei que estavam à espera do tiro pela culatra), o programa não medrou, passou por vários horários e desmarcaram-no para misérias mais nocturnas. Nessas, eu estou sempre presente. Estou, como diz o sr. Cavaco “na prossecução dos objectivos” e nas limpezas étnicas, com ou sem vozes de protesto. Os discursos formais não me aliciam. A liga foi última em tudo e nisso bem melhor que os Contemporâneos e as hipocrisias do Chaves ou do Bush ou daquele perímetro não ultrapassável dos programas (novos?) do Herman(o). De peito feito, com ou sem borrachisse, denuncio a vitória do Visconde da Apúlia na dita liga, embora gostasse do Quim, um gajo de Cavez…. 

setembro 24, 2008

À bolina

De momento mantenho-me firme na leitura de livros. Outras descobertas raras assomam na vertigem do dia restante. É o trabalho. Até pensei em comprar um barquito para montar às peças. Um veleiro antigo, quem sabe, para adormecer a modorra nas garras da angústia que nos conduz em quotidiano ao mundo pastoso da “Ferreirinha”. Da TV, às tantas, descobrimos uma ilha. A porta fechada com janela para a meteorologia… 

Perdidos

Perto da padaria, ia eu de bicicleta, encontrei o sr. Magalhães. Estava atordoado, por assim dizer, com tantas magalhisses que desbordavam dos cafés, na rua, na TV e “por todo o lado”, parece que é “um computador de andar na mão”, disse, antes de pedir, já dentro da padaria, um martini cerveja. Passei o martini e recordei o Magalhães da minha terra, amante de Carlsberg e amigo de cangostas e caminhos fora, com ou sem berg, irmão e filho de outros Magalhães, amigos dos altos e baixos como nós. 
Chegado a casa o Magalhães espevita-se na janela da TV. Recordo o Fernão (de Magalhães) a calcorrear as cangostas do mundo, muitos anos atrás. Agora o Magalhães (o esquecido) é nome de computador. Um terço, parece, de cepa nossa. Para não variar.

setembro 21, 2008

Das minhas cassetes: recordam-se?



The Cure: A strange day, LP "Pornography"(1982)

Em final de noite uma recordação, a anunciar o Outono que amarra inexoravelmente os nossos dias numa melancolia de cores únicas, com castanhas, dióspiros e folhas caídas, após um tinto alentejano suave. Aqui ao vivo, mas absolutamente actual?...

setembro 20, 2008

Inútil

Escrever é na melhor das hipóteses uma vida solitária.

                                                         Ernest Hemingway

setembro 19, 2008

setembro 18, 2008

A bigorna dos dias

A irrelevância deste espaço, já para não referir à cabeça a sua inutilidade, faz-se, por certo, de espasmos, reviravoltas e sem prazer nenhum, infortúnios. Serve o dito para reafirmar que as poesias que recebemos no balde não serão, quase nunca, bem albergadas. Ao monte dos nossos ossos inúteis, temos por costume e por afecto, juntar palavras. Depois (e só depois), vamos à padaria…comprar pão.

É o sistema


O sistema “governa-se”. O paradigma liberal ou neo-liberal anuncia o equilíbrio, sem intervenção, obviamente, do estado. Certamente que sim. Entretanto, no último ano, 3 ou 4 bancos de investimento (grandes) faliram, e agora uma seguradora está a prestes a cair da falésia. O estado Americano já tinha proporcionado uma rede e agora, parece, vai mesmo “investir” para que a coisa não “rebente” nas mãos. Sucede que esse mesmo estado não “faria” parte do “controlo”. Sucede que o dito, sem querer, lá terá que intervir, mesmo não sendo desejado(?). E na realidade fá-lo sempre que é necessário para acudir a esses “pobrezinhos”. Aos outros pobres, isso nunca: têm que desenvolver um conjunto de “competências” e “capacidades” para per si crescerem. A mesma falácia inerente a todos os proteccionismos, mas para alguns. Não tenho nada contra os bancos, apenas penso que são inúteis (como se verifica). O sistema não se auto-regula. Governa-se.  

setembro 17, 2008

Ontem também tivemos coisas boas

Em primeiro lugar, salientar que o Sporting de há 15/20 anos (e anteriores), chegaria a Barcelona, faria uma exibição fabulosa e perderia o jogo (eis o Sporting). Hoje (ontem), chega a Barcelona cheio de tiques e, parece, estratégia(s) (e sem Vukcevic) não joga nada, deslumbra-se não se sabe bem com quê e perde.  
Uma palavra para o “relatador” e o comentador de serviço, este último, uma alma capaz de expressões como um tal de “momento de recuperação alta”, encantados (sem o Barcelona jogar nada) com o “estádio”, o “Messi”, a “forma de jogar” e o “encontrão” parece que “ligeiro” e que resultou na grande penalidade. Uma miséria muito “nossa”. 

setembro 15, 2008

Apetece-me logo beber milhões de cervejas...

Voltou o programa inóspito da Dona Fátima. Segunda-feira à noite (madrugada de terça), sem humor trilhado, recolhemos à consciência do “país que somos”. É preciso valorizar o “percurso” e os milhares de “excelências” que por aqui ruminam. A ciência e o ensino “lá está”, afiguram-se, de facto “uma questão importante”. Mais as percentagens. “Diga, diga, Sr. Dr.”, porque afinal o pensamento deve ser “sistémico” e “para pensar(?)”. Precisamos de um “salto qualitativo”. Desisti. Recordo apenas o erótico palavreado da Dona Fátima: “menos devagar mas está a penetrar”.

setembro 14, 2008

Aborreço-me assim

Cheguei afogado em suor à padaria. Fechada. À porta, em final de pão, comentava-se a Madonna (em Lisboa, ai tanto povo) e o CR7 (parece que o tipo criou um logo) Ronaldo. Temos por cá então a Madonna e é uma festa para as televisões, jornais e rádios (vá-se lá saber porquê). Isto ajuda a senhora a vender os seus discos e os seus espectáculos, em ciclo vicioso, numa altura em que Portugal tem uns 30 festivais por ano. A “estrela” da “cabala” vai entrar muda e sair calada. Um bocado mais abaixo e ao lado, na Madeira, o Sr. Cristiano quis receber a “bota” perto dos “seus”, disse, acrescentando que seria, igualmente, uma homenagem ao “pai”. Entrou mudo e saiu calado (para os seus – quanto ao pai não sei), falou apenas para alguns e para a caixinha da TV, com uma vaidade pacóvia e tinebre, já para não falar do “esquecimento” da sua origem. Falta aqui o “Homem Tarte”, na pessoa (secreta) de Homer Simpson (ainda não viram o episódio?), para lhes atirar com umas tartes à cara.

setembro 13, 2008

Bicicletas desportivas e de saúde

"Ladrões de bicicletas", Vittorio de Sica,1948
“Vou comprar uma bicicleta”, sonhei o ano passado. Sei-o, ainda, pelo registo num caderninho, que o confirma. Então, fui à selva das bicicletas e fiquei estarrecido com as possibilidades, os tipos, os preços. Por isso não arrisquei as perguntas: “tem bombas e óleo?”; “dão apoio às vítimas de insucesso ao crédito?”. Na padaria há o “pãozinho da saúde” ali, seriam as “bicicletas da saúde e desporto”, parece. Eu apenas queria uma bicicleta, digamos, para andar. Pronto.
Remediei-me com a memória de uma Vilar com pedaleira dupla (acho), de ferro e com bebedouro. Foi a minha segunda bicicleta. Às voltas, com voltas, ao bairro, fiz umas 200000. Agora, para comprar uma ginga temos que tirar um curso, com vários módulos, e entrar numa espécie de centro bicicletal. Fiquei aterrado. Vou ao Pingo Doce comprar uma das baratinhas, ou...

setembro 11, 2008

O amanhecer da bola

O meu amigo Alfredo azougou-me a manhã com a manchete do Público onde se observava que “Portugal joga bem mas perde com a Dinamarca”, e da Bola “À antiga portuguesa”. 
“Não se trata (apenas) de morrer na praia”- avançou, “é uma questão civilizacional e muito nossa”. “Como?”, perguntei, sem perceber nada. “Voltamos ao jogo como uma das nossas belas artes: bonito, singelo, envolvente, ilusório e, claro, de preferência sem balizas, com falhanços estrondosos à frente e atrás, já para não falar no azar e na injustiça. A coisa, enfim, não é nova, é velhinha de anos e anos.”
Ainda me deu para esboçar, num gesto imperceptível, não sei bem, uma resposta, mas Alfredo continuou de dedo em riste: “A passeata e o desdém não são para aqui chamados. O jogo, esse, tem 90 minutos e o “mestre” lá no banco é, oh, é um cientista com o pé gelado e sem ícones que lhe valham. Nos últimos dez minutos quando se está a ganhar esquecem-se os escrúpulos e a beleza… e aquela última substituição foi uma prenda de anos, que foi aquilo afinal?”Antes de sair ainda teve tempo para me recordar “o europeu de 1984, o expoente máximo do desperdício”…”Não te levantas?”,concluiu, e saiu.
Quanto aos paralímpicos, queria eu dizer-lhe, depois da visita de um secretário de estado inexistente, e da partida com alguma fumaça, eis que chegamos à normalidade: dois pesos, duas medidas, a mesma bandeira.
E voltei a adormecer...

setembro 10, 2008

Mais uma vez deito-me às tantas

Assisto na RTP2 a um documentário sobre o 11 de Setembro. Imagens. Há dois dias apenas, em Braga, um túnel começava a perfurar a terra, um edifício desmoronava-se ceifando três vidas e, ali perto, alguém ameaçava um suicídio. O mesmo dia. Ali ao lado o anjo trabalhava ao computador e depois saia em direcção ao nada. Babilónia. Talvez se dirigisse a alguém. Ou à padaria. Na igreja as badaladas acompanhavam a voz leitosa do padre – disseram-lhe. O primeiro pensamento e o segundo, já agora, foram ir comprar vinho para o jantar. Depois, muito depois, ocorreu-lhe um poema do Walt Whitman, sem sorte que o valha:

Alguém pensa que é sorte ter nascido?
Apresso-me a informar esse homem ou essa mulher que é igual sorte viver ou morrer, eu sei.

Morro com aquele que vai morrer e nasço com aquele que está a nascer, não
  estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas,
E examino os mais variados objectos, nenhum igual ao outro e todos bons, 
Boa a terra e boas as estrelas e bons os seus complementos.
“in Canto de Mim Mesmo”, Walt Whitman; tradução de José agostinho Batista

Não estou seguro de nada disto. Nada. Cheguei aqui num bote sem confirmação. 

setembro 06, 2008

Dos cafés

No café gosto de ouvir. Assim mesmo: escutar. E ler os jornais, os regionais, por exemplo. Recentemente um diário de Braga chamava à manchete, enfatizando para glória divina, os premiados e ”melhores alunos do concelho”. Coisa com contornos “velhinhos”. Uma das tais premiadas pavoneava-se para a fotografia como uma “coelhinha” country, toda aperaltada à morangos de esquina. Parece que terá frequentado o ensino “tecnológico” (é assim que se diz?), contra todas as expectativas (e conselhos) dos próximos, os quais consternados, demoraram a dourar a pílula. Revelou-se, todavia, uma aluna competente e “de boas notas”, com uma média final apreciável. Aprecia “números” e nos tempos livres gosta muito de “televisão”, alguma “música” e de “dormir muito”. Nunca “leu um livro”. Não gosta. Muito menos consegue imaginar ler coisas com “200 páginas”. Mas gosta de escrever (tipo cartas e mails, querida?). É este o espírito, a irresponsabilidade refulge de cima para baixo. Segui para outro café. Com novidades…. 

setembro 04, 2008

Está a chegar o Outono?

Um homem está em casa e liga a televisão, note-se, liga a televisão e um acaso leva-o à SIC onde se expõe solenemente em debate o “problema” da segurança. “Portugal está a ficar mais perigoso?”, rejubila uma voz em off, uma, duas vezes, entre ligações directas, indirectas e em estúdio, rapidamente, sempre a capitalizar um efeito, digamos, abrangente. Sempre os mesmos e mais alguns, as “vítimas”, entretêm o telespectador incauto. Nas entrevistas, se por acaso alguma das tais “vítimas” não enriquece a “sentença” com algum sangue ou sofrimento, o dito jornalista, em directo, rebate com um “mas deve ter sofrido?"; tudo devidamente encaixado em demagogias de lupanar e vendetas à casa. É um jornalismo (sem reportagem e sem nervo) de pacotilha, sempre, mas sempre, mal falado, “espectacular” e deprimente. Solitário, experimento um discurso inflamado contra a parede branca. Abro uma cerveja e volto aos livros:

As surpresas começaram aqui; assim que começaram, multiplicaram-se; surgiram em torrente: era como se, do modo mais estranho possível, todas tivessem sido mantidas na retaguarda, aglomeradas num denso novelo, à espera do entardecer da vida, do tempo em que o inesperado já não acontece à maioria das pessoas
“A Fera na Selva”, Henry James

Nunca mais chega o Outono…

Terá amanhecido assim?

"O Semeador", 1888, Vincent Van Gogh

setembro 01, 2008

Foi você que pediu uma ideia?

Setembro é um mês onde normalmente surgem algumas “ideias” e, em alguns casos, parece, ”ideias novas”. Ideias, claro está, naquele sentido, digamos, oitocentista, acoplado à “modernidade”, “às coisas novas” ao “lá de fora, tão bem exposto nas obras do Eça, e curiosamente, também adjudicadas à alma russa, trespassando a pena de Dostoiévski. 
Nós, por assim dizer, ainda não abandonamos o século XIX no que toca à vertigem das “ideias” quase sempre novas e quase sempre importadas. É um caminho em círculos que nos entretém através das gerações. Depois das férias é pior. Atente-se nas rentrée (comme ça) políticas: os discursos inflamados e morenos, os silêncios ensurdecedores, as acções ditas “desviantes” e as propostas “fracturantes”. Atente-se nas novidades desportivas e culturais, nas análises aguçadas e abrangentes, nos enredos sociais e psicológicos que necessariamente contextualizam as situações, sejam elas quais forem, esmiuçadas (e arremessadas) por técnicos devidamente especializados em quase tudo.
A ideia é essa…

agosto 30, 2008

Hoje amanheceu assim:

Um dia, à saída da visão terrífica,
Que eu erga o meu cântico de júbilo e louvor aos Anjos cúmplices.

"As Elegias de Duíno" (fragmento de A Décima Elegia), Rainer Maria Rilke

agosto 27, 2008

Um passeio em Madrid

"Maja Desnuda", Goya
Na segunda parte o Sporting ganhou dois a zero aos parolos do real madrid (assim mesmo com minúsculas). 
Gostei mais da primeira (cinco a um para os outros). Como sportinguista aprecio o sofrimento e o desleixo. Queriam uma equipa pequenina a esfarrapar-se contra um golias de meia tigela, embalsamado numa fruteira ricaça de gosto duvidoso? O comentador, atento, ter-se-á referido a um “desleixo inconcebível”, o qual, nestes casos, parece, costuma “ser fatal”. O gajo deve ser do “glorioso”, esse mesmo que levou QUATRO a ZERO em 1996 disputando o mesmo troféu. A memória, curtíssima, resvalava, no mesmo sentido, num comediante “malucos do riso” que aventava curiosas vitórias do FCP contra o real de madrid, entre cervejas e o Mário Jardel. Isto na tasca do porcalhoto. Afinal, futebolisticamente (coisa que domino como o controlo dos meus intestinos), a primeira parte revelou-se inócua e fria nas nossas hostes: alguns maus jogadores; uma “grande penalidade” inexistente; um golo na própria baliza. Mais valia terem ido ao Prado ver a Maja.

Quantos querem?

O Brasil é um país fabuloso. E divertido. Leio hoje no Diário de Notícias (sem link), que para as eleições municipais registaram-se seis candidatos com o “apelido de Obama". Temos então o “Obama de Belford Roxo”, a “Epaminondas, o Obama Brasileiro”, ou um tal de “Davi, o Obama de Assentamento”, etc. etc…
Um regabofe, este Brasiu. Ainda lá chegaremos.

agosto 26, 2008

Partir...

Há quem diga que nos dias de hoje temos que pegar numa arma. Eu prefiro a mochila. A mim, Bruce Chatwin!...

agosto 25, 2008

...

Quando o Chiado ardeu todo, faz hoje 20 anos, eu estava de férias em família numa praia do Norte. Aquilo não me pareceu distante. Pareceu-me, recordo-o, uma infâmia. 

Eduardo Prado Coelho

(1944-2007)

Cheguei ao primeiro aniversário da Morte de Eduardo Prado Coelho ainda antes dos jornais, pelo Portugal dos Pequeninos. O EPC era o “intelectual” do burgo. O “vai a todas”. Quando éramos putos, era da praxe a expressão “pareces o Eduardo Prado Coelho”, se alguém saltava a pocinha com uma “ideia”, ou congeminava umas secções de cinema francês. Sem me aperceber lá o fui lendo e escutando de mansinho. Nunca fui um admirador (ou grande conhecedor?), mas fazem falta gajos como o Eduardo Prado Coelho. Faz falta alguém para conversar, nem que seja baixinho.

agosto 23, 2008

Dos outros

Sobre o desastre (imprevisível???) da linha do Tua ler mais aqui. Esta bosta tresanda…

Coisas do Rimbaud

O abancado do título postado anteriormente é verdadeiro. Ao anjo, sozinho, ou não, falta-lhe a muleta inútil. Ou a tabuleta se quiserem. Quanto ao barbeiro, já lá não ponho os pés vai fazer um ano em Setembro. O meu barbeiro é o de Sevilha. Relativamente a intervenções, meus caros, já estamos bem servidos no “plano político” para esbanjar o nosso tempo e torrar-nos os miolos. De resto, tirem-me também daqui a “metafísica” a física e o balde de água fria dos vossos corações. Não sou sublime. Para que conste. 

agosto 21, 2008

Abancado como um anjo no barbeiro

"O Grito" Edvard Munch

Vivo atormentado. Sou, para além disso, como já o disse, um tipo anacrónico. Neste tempo único, mastigado diariamente por anátemas do mais fino terror, a brusquidão de um pensamento envolve terríficas ondulações. As marés vivas. No entanto, debalde. Chegadas à praia, desavindas, convidam ao desmaio das penumbras guarda-sol. É o tempo de fuga. Por isso, talvez, não tenho férias. Por isso e porque a falácia do deus menor não mo permite. A coisa sobe. Quero dizer, o investimento ou o PIB, graças, pois claro, ao empenho do Sr. Eng. Pergunto-me então, que livros para férias. Existem livros a carregar para férias com a maldição da casa às costas? Eu cá, sem milongas, leio todo o ano com a casa às costas. Carrego agora o Fiódor, uns livrinhos(?) (assim os denomina o João), do Tolstoi e do Henry James a chegar ao Kafka (pequeninas obras primas – entre outros, numa iniciativa DN e Quasi), passando por uma rebaldaria de calhamaços ligados por umbilical cordão à história e à filosofia. É todo um pé canhão de palavras na corda bamba. Todo o ano.

Foi há 40 anos...

"A primavera de Braga?"- perguntou...

Hoje amanheceu assim...

agosto 19, 2008

O olimpo português

O mundo português, a expensas de tanto remoer em noitadas mal dormidas, nuns tais de jogos olímpicos, apesar de durante quatro anos se estar a cagar para o desporto (sem futebol) e, sem perceber patavina da maioria dos ditos, deixa-se ir, morno como um leitinho, em demandas alucinatórias. Os jornais e a imundície simplória ajudam à festa. Sucede que nada disto remonta a ontem. A miséria da conversa tasqueira agarra-se a qualquer tronquinho. Ainda agora escutei um especialista de tasca afirmar que não tinha conseguido dormir porque tinha visto um filme de terror, pasme-se, “Espanhol”. “Gosto mais”, acrescentou o néscio, de “acção e comédia, mas com alguma história”. Um outro, mais refinado, observou a superioridade da “comédia de American Pie” e a “medalha da Vanessa”. Com torta, ou sobretudo por ela, a vidinha esvai-se em segundos enjaulados na sueca encartada do dia a dia. O chefe do comité, entretanto, demitiu-se. Sob custódia, os nossos valentes adormecem-nos as vacances num casco de “Amontillado”(se não leram Edgar Poe, dane-se) . É emparedá-los.

agosto 18, 2008

Perdidos

Sem pistas e sem rumo o jantar demandou, por fim, um melão a suspirar os “nossos melões”. Puro desvario. Sem mais, o bacalhau optimizado (passe o acordo ortográfico) ressurgiu ainda como o âmago do repasto. O verão não é forte. Sonho com a padaria do costume e o invólucro nefasto sem deuses que o valham. Entretanto, a dona Custódia não foi ao Pontal. Era longe. O Sr. Eng. voltou, animado, com as hostes e os sacos de propaganda a estrumar o quintal. Das esquerdas, mais à frente, depois da festivalada, ainda a meio gás, ruminasse (diz-se) três ou quatro investidas ao capital de nome próprio.
Acossado, e com o Alfredo a congeminar outros paradeiros, escolho um vinho impróprio para consumo. Mais, mais tarde, uma cerveja despida de intenções. E, depois, o domínio dos Deuses!

agosto 16, 2008

Pato enlatado

Não é por causa de medalhas mas do desplante destes presumidos atletas (supostamente) de alta competição. Agora até não funcionam porque de manhã, parece, “só estou bem na caminha” (palavras do veraneante em Pequim, Marcos Fortes). É trazer esta canzoada toda das férias Chinesas. 
Por falar em Chinocas, aquilo tresanda a fancaria, desde a cerimónia de abertura, às roupagens televisivas, passando pelas fuças inóspitas da soldadesca e da suposta abertura ao exterior, não esquecendo os 700 patos (à Pequim) todos os dias consumidos na aldeia olímpica. Interessante.
Uma gigantesca loja dos 150 e um logro do tamanho dos patos: nós! 

Para acabar de vez com o verão - Death In June: death of the West

agosto 12, 2008

Um PS (não confundir com partido socialista – existe tal?):

“Não tenho ouvido Death In June”, dizia-me Alfredo à saída da padaria, com a Dona Custódia a assinalar que não ia de férias por volúpia emigrante. “Nem eu”, disse-lhe(s). 
Mas em compensação, acrescento, como muitos croissants do Minipreço, chouriço das beiras e algum queijo. De peras maduras e farinhentas passo. Acresce muito polvo, muito peixe e bananas da Madeira. Sinto-me pendurado numa corda de material incerto a puxar para o duvidoso. Tudo regado com algum vinho e outros placebos alcoólicos. Milhões de dólares não chegam para pagar esta inoperância inalada a cada segundo. Dos ecrãs, bem se vê, morre-se. Aqui, as películas juntam-se na madrugada infame de cada palavra. Vi-o também (julgo) numa série da TV. 
Todas as impossibilidades da vida enroscadas num part-time! 

A música a esmiuçar a noite

Não sei como, recordo os Go-Betweens e ouço-os num soslaio emocionado entre membranas de fumo a pesar na brancura da sala. Sem desejar mais, digo a Alfredo (alguém mais terá escutado?) que gostaria de ter tudo do Jeff Buckley, Neil Young e do Nick Drake. Bebo mais uma cerveja enquanto não recordo outros. 

agosto 11, 2008

Bulgakov nas mãos de uma donzela

Hoje, para falar verdade, senti o pecado da inveja. Observem: à minha frente, escarrapachada encontrava-se uma belíssima donzela que lia (lia, pasme-se - já não é pouco) “Margarita e o Mestre”, grandiosa obra de Bulgakov. Eu que, como Almada, já senti o peso da impossibilidade de tudo ler, eu, nesse preciso momento, morri mais um bocadinho, porque pretendo reler a dita. Continuo a epopeia de “ Os irmãos Karamázov” (já no II volume), entrecortada com Tolstoi, alguma poesia e tentações filosófico/históricas. Acabo o dia sem ir à padaria. Num mercadito lá encontro o pão sem o nosso de cada dia. Já agora, releio os panfletos dos medicamentos, entre mortalhas de revistas de tempo ambíguo. A casa de banho rumina prazeres incertos de todos os dias. Mais a mais, as cãs asseguram a volúpia das horas.

agosto 10, 2008

Com dois dias de atraso mas com muitas leituras às costas

Ruy Belo (1933-1978)

Por motivos nada alheios ao escriba, entre viagens curtas de rapina, apenas agora relembro o esquecidíssimo poeta Ruy Belo a um Portugal “que verdadeiramente não existe”. Ruy Belo morreu a 8 de Agosto de 1978 (30 anos). Parece que a partir de agora (embora já com várias reedições das suas obras) os meliantes do regime finalmente lhe deitaram a unha. Lá está a impagável Inês Pedrosa e adivinho outros. Nada contra se lerem os poemas. 

MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

in “Boca Bilingue” (1966)